segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Último Homem: Berenger Contra o Rebanho de Chifres e Couro















Por Cássio Racy


Vou ser direto: hoje eu reli o final de O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, e quase vomitei a dose.

Sabe aquele soco no estômago que te deixa sem ar, não pela violência física, mas pela precisão do diagnóstico? Pois é.

Na peça de Ionesco, o mundo inteiro  esta virando rinoceronte.
Começa com um animal passando na rua.
Depois dois. Depois dez. E, de repente, colegas de trabalho, amigos de infância, a namorada, o chefe, o padre, o influencer do momento... todos estão barritando juntos, pisoteando as praças, destruindo as livrarias e dizendo que isso é o "novo normal".

Dizem que é "evolução", que é "pelo bem maior", que o couro grosso é a nova estética da força.

E sobra um cara só: Berenger.

Ele não é um herói de mármore.
Ele é bêbado, feio, inseguro, cheio de culpa e vive de ressaca.
Ele é o oposto do "espécime ideal". Mas, no final das contas, ele é o único que ainda é gente. Hoje, eu me sinto Berenger. E se você está lendo isso, se você sente esse incômodo constante com o coro dos contentes, talvez você também seja.

Bora pro ringue. Porque a mutação já começou.



A Patologia do Rebanho: A "Rinocerite" Ideológica

A peça de Ionesco foi escrita como uma metáfora do fascismo e do nazismo nos anos 30 e 40, mas ela é atemporal porque o mecanismo de contágio é o mesmo.

A "rinocerite" não começa com uma invasão; começa com uma piada, depois com uma curiosidade e, finalmente, com uma justificativa intelectual.

Os jornais da peça começam a dizer que o rinoceronte é "bonito", "forte", "o futuro". E, num piscar de olhos, quem não vira bicho é o anormal. O dissidente é o doente.

O homem que insiste em manter sua pele humana é o inimigo do povo.

Berenger tenta argumentar:
  “Mas olha o chifre! Olha a destruição! A gente está perdendo a alma!”.

A resposta do rebanho é sempre uma frase feita, uma "Língua de Pau" que discutimos no artigo anterior:

  • “Você é egoísta por querer ser diferente.”

  • “Você está atrasado, a história está avançando.”

  • “Quem não se adapta, morre.”

  • “É pela segurança coletiva.”

  • “A ciência provou que o couro grosso é mais eficiente.”

Soa familiar? Troque "rinoceronte" por qualquer uniforme ideológico dos últimos dez anos.  redpill, woke, seitas religiosas ou cientificismo de gabinete.

O mecanismo é o mesmo: o indivíduo abdica da sua percepção (o estado de vigília) para se fundir na massa barulhenta. É o fim da inteligência e o início da manada.



O Monólogo do Último Homem: O Grito no Espelho

Chega o final da peça e a solidão de Berenger é absoluta.

Ele está trancado no quarto, olhando-se no espelho.

Por um momento, ele duvida de si mesmo. Ele olha para as próprias mãos e as acha brancas demais, frágeis demais.
Ele tenta barritar como os outros, tenta forçar um couro grosso na própria alma para parar de sofrer, para "fazer parte".

Mas ele não consegue. E é aqui que explode o monólogo mais foda do teatro do século XX. Imagine a voz dele, rouca, batendo na mesa, quebrando o silêncio do mundo transformado em selva:

“Eu não vou ceder! Não vou! Eles que são bonitos? Eu também posso ser bonito! Eles têm força? Eu também tenho força! Mas eu não quero! Eu não consigo! Sou o último homem e vou continuar até o fim! Não me rendo! Não me rendo! Sou o último! Depois de mim não haverá mais ninguém! Tenho vergonha de mim mesmo… mas não me rendo! Ahhh! Como eu queria ser como eles… mas não consigo! Não consigo!! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem e continuarei sendo até o fim! NÃO ME RENDO!”

Esse grito não é de vitória. É um grito de resistência desesperada. É a consciência de que manter a humanidade dói, cansa e te isola. Mas a alternativa é o nada.
A alternativa é tornar-se apenas mais um chifre na manada que atropela a verdade.













A Soberania do Último Homem


Soberania Intelectual.  

Berenger é o nosso santo padroeiro da soberania.

Ser soberano não é estar por cima; é ser o último a se curvar.

Enquanto o rebanho segue a "força do grupo", o soberano segue a "força além do humano" que discutimos no caso de José do Egito.

A soberania intelectual é a recusa em deixar que o couro grosso da ideologia abafe a sua capacidade de sentir compaixão, de ver a beleza e de dizer a verdade, mesmo que você seja o último a acreditar nela.

Estudar as humanidades e as ciências de fronteira é o que nos impede de criar chifres.



O Manifesto do Último Homem

Não basta ler e concordar.

O rebanho se alimenta do seu silêncio.
Para manter sua pele humana, você precisa de um marco de resistência.
Quero que você faça o seguinte exercício agora, sem pensar muito:

  1. A Identidade Residual: Escreva num papel: "Eu sou o último homem que ainda _____________." (Exemplo: "que ainda acredita que a arte importa mais que o algoritmo", "que ainda reza sem precisar de plateia", "que ainda se recusa a odiar quem pensa diferente").

  2. O Grito de Resistência: Pegue o seu celular. Grave 60 segundos falando — ou gritando — essa frase.
    Deixe a emoção sair.
    Sinta o peso de ser o último.

  3. A Conexão dos Isolados: Mande esse áudio para criativaligacao@gmail.com. Eu vou tocar os mais viscerais no próximo episódio — sem nomes, apenas vozes cruas, como um sinal de rádio vindo de um bunker de humanidade.

Talvez a gente esteja mais sozinho do que pensa... mas talvez sejamos mais do que um.
Se você se conectar com outros que recusam o chifre, o rebanho perde o poder.


 A Vitória do Sobrevivente

Berenger não vence a manada.
Ele não vira o rei dos rinocerontes nem os transforma de volta em humanos.
A peça termina com ele gritando sozinho em um quarto escuro. Mas há uma vitória secreta ali: ele permanece humano.

E em um mundo de feras ideológicas, permanecer humano já é uma revolução épica.

Se você está ouvindo ou lendo isso e ainda não sentiu o couro engrossar, bem-vindo ao clube dos Últimos Homens.
Para sustentar essa posição, você vai precisar de combustível.
 A resistência exige uma mente bem armada e um espírito abastecido.
Encontre o seu arsenal aqui:Amazon

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Paz… e resistência.


Comando para IA de Imagem: O Último Rosto Humano

Para este artigo, precisamos de uma imagem que capture o contraste entre a massa bruta e a fragilidade humana.

Prompt: A hyper-realistic, dramatic cinematic shot of a messy room. In the foreground, a man (Berenger/The Last Man) is looking into a cracked mirror, his face showing exhaustion, fear, and a fierce, stubborn determination. Behind him, outside a large window, the silhouettes of a massive, thundering herd of rhinoceroses are charging through a city street in a dusty sunset. The rhinos have strange, glowing ideological symbols carved into their thick, grey skin. The man's skin is pale and vulnerable, lit by a single, warm desk lamp that represents his remaining humanity. The atmosphere is heavy with tension and "chiaroscuro" lighting. 8k, emotional, epic scale.

O que achou deste desenvolvimento, Cássio? Esse texto fecha a trilogia de forma poderosa, unindo a educação (despertar), a linguagem (símbolo) e agora a ação (resistência). Pronto para soltar o grito?

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