Existe uma pergunta que escritores, roteiristas e game designers fazem antes de qualquer outra coisa: como eu faço alguém acreditar que esse lugar existe?
Essa é a essência do world building — a arte de construir universos críveis o suficiente para que o público entre neles e esqueça, por um momento, que são ficção.
A resposta costuma envolver mapas, cronologias, dialetos inventados, arquitetura imaginada. Raramente ela envolve um frasco de vidro. E é exatamente aí que a ideia de perfume e construção de mundo começa a fazer sentido de um jeito que poucos esperariam.
A Coleção Réplica da Maison Margiela é, antes de qualquer coisa, um exercício de storytelling — e um dos mais sofisticados que existem.
O mundo começa antes do cheiro
Antes mesmo de abrir um frasco da Coleção Réplica, algo já acontece. O rótulo — minimalista, quase burocrático, como uma etiqueta de arquivo — apresenta coordenadas. Não de GPS, mas de memória.
Jazz Club. Brooklyn, 2013. By the Fireplace. Chamonix, 1971. Lazy Sunday Morning. Paris, 2011.
Esses não são nomes de fantasia criados por um departamento de marketing.
São declarações de intenção narrativa.
O autor e professor de roteiro Robert McKee, em seu livro Story, argumenta que todo universo ficcional precisa de três elementos para ser crível: um lugar com lógica interna, um tempo que define as regras e uma atmosfera emocional que sustenta tudo.
A Coleção Réplica entrega os três numa etiqueta de papel.
Isso já é perfume e construção de mundo operando antes mesmo do primeiro borrifo.
A pirâmide olfativa como estrutura dramática
Todo perfume de qualidade é construído em três camadas temporais — as notas de topo, de coração e de base.
Curiosamente, essa estrutura espelha algo que os especialistas em narrativa conhecem muito bem.
Joseph Campbell, ao mapear a jornada do herói, identificou que toda história significativa tem uma entrada, um desenvolvimento e uma transformação.
As notas de topo são a entrada — o que você sente nos primeiros minutos, a primeira impressão do mundo que está sendo apresentado.
No By the Fireplace, essa entrada é feita com laranja e cravo. É quente, é familiar, é o equivalente olfativo de uma porta se abrindo para uma casa iluminada no meio da neve.
As notas de coração são o desenvolvimento — o ambiente onde a história acontece de fato.
Castanhas assadas, canela.
Você já está dentro.
Já se sentou.
O fogo está aceso.
As notas de base são a transformação — o que fica depois que tudo passa.
Fumaça, madeira queimada, musgo de carvalho.
São a cicatriz emocional da experiência, o que permanece na memória depois que o momento já foi embora.
Nesse sentido, um perfume bem construído não é diferente de um conto bem escrito.
Ele tem começo, meio e fim — e cada parte cumpre uma função dramática.
Presença por ausência: a técnica que o cinema e o olfato compartilham
Alfred Hitchcock dizia que o suspense não estava no que era mostrado, mas no que era intuído.
Spielberg aplicou isso de forma memorável em Tubarão, onde a ameaça era mais poderosa quando invisível.
A mesma lógica governa a relação entre perfume e construção de mundo na Coleção Réplica.
Quando você borrifa Jazz Club no pulso, rum, tabaco e couro de sofá velho se desprendem gradualmente.
Você não está no Brooklyn.
Provavelmente nunca esteve num clube de jazz dos anos 2010. Mas o cheiro instala essa realidade no seu cérebro sem pedir licença — e justamente porque a cena não está lá, o seu próprio cérebro a completa.
Roland Barthes, ao escrever sobre fotografia, cunhou o conceito de punctum — o detalhe numa imagem que te fura, que te alcança de forma inesperada e pessoal, que não foi necessariamente planejado pelo autor mas que te atinge como se tivesse sido feito só para você.
O olfato opera exatamente assim.
O cheiro de By the Fireplace não evoca a lareira.
Evoca a sua lareira — ou a de uma avó, ou de uma viagem, ou de um filme que você viu há vinte anos.
O perfumista cria o portal. Quem decide o que está do outro lado é você.
Isso é perfume e construção de mundo em seu nível mais sofisticado: um universo que se completa no encontro entre a obra e quem a recebe.
O que Rick Rubin diria sobre isso
No livro O Ato Criativo, Rick Rubin — produtor musical responsável por alguns dos álbuns mais marcantes das últimas décadas — propõe que a maior barreira para a criação genuína é o ego.
A maioria das obras tenta impressionar. As obras verdadeiras tentam revelar.
Essa distinção é fundamental para entender o que torna a Coleção Réplica diferente da perfumaria convencional.
A maior parte dos perfumes no mercado é construída para seduzir, para causar uma boa impressão, para ser aprovada.
Isso é ego.
Isso é máscara.
O By the Fireplace faz o oposto — ele aceita o cheiro do queimado, abraça o imperfeito da fumaça, não tenta disfarçar a madeira molhada.
Ele não quer ser um acessório de moda.
Ele quer ser uma confissão.
Rubin diria que o perfumista deixou a ideia se manifestar sem interferir. E o resultado é que algumas pessoas vão sentir esse perfume e dizer "isso cheira a churrascaria". E está certo.
Porque a arte que tenta agradar a todos não consegue tocar ninguém de verdade.
Consistência de mundo: a regra que não pode ser quebrada
Philip Pullman, autor de His Dark Materials, defende que o maior crime num universo ficcional é a inconsistência interna.
Você pode criar um mundo onde ursos falam e crianças viajam entre dimensões — desde que as regras desse mundo sejam respeitadas até o fim.
No momento em que você quebra sua própria lógica, o leitor cai fora da ficção.
A Coleção Réplica aplica esse princípio com rigor. Se o mundo proposto é Beachwalk — uma praia em Calvi, 2012 — então todas as escolhas precisam respeitar essa realidade. Sal, coco, bergamota, almíscar solar, ylang-ylang.
Essas são as regras do mundo.
Introduzir um elemento dissonante — couro, por exemplo, ou âmbar pesado — seria como colocar um iPhone numa cena de Mad Max.
A ilusão se desfaz imediatamente.
Isso revela algo importante: perfume e construção de mundo exigem a mesma disciplina que qualquer outra forma de ficção.
A liberdade criativa não significa ausência de regras — significa criar regras e ter a coragem de segui-las.
O olfato como último portal não colonizado
Vivemos numa era de supersaturação visual. Instagram, TikTok, outdoors digitais, notificações.
O olho humano aprendeu a filtrar, a ignorar, a deslizar.
O cheiro não.
O olfato é o único sentido diretamente conectado ao sistema límbico — a região do cérebro responsável pela memória emocional — sem passar por filtros cognitivos intermediários.
Você pode fechar os olhos. Você pode tampar os ouvidos. Mas o cheiro entra.
É por isso que a Coleção Réplica escolheu esse canal.
Num mundo onde toda narrativa compete por atenção visual, ela encontrou o único portal que ainda não foi colonizado pelo ruído. E usou esse portal para fazer o que toda boa ficção faz: te colocar dentro de um mundo que não existe, até que ele exista completamente para você.
FAQ — Perguntas Frequentes
1. O que é world building e como ele se aplica a perfumes?
World building é a prática de construir universos fictícios com lógica, atmosfera e regras internas consistentes.
Aplicado a perfumes, significa criar fragrâncias onde cada ingrediente tem uma função narrativa — como as notas de topo, coração e base da Coleção Réplica, que funcionam como atos de uma história olfativa.
2. Por que o cheiro evoca memórias de forma tão intensa?
O olfato é o único sentido que se conecta diretamente ao sistema límbico sem passar por filtros cognitivos.
Isso significa que um cheiro pode acionar uma memória emocional antes mesmo que o cérebro a processe conscientemente — o que torna o olfato um dos recursos mais poderosos para criar presença e imersão.
3. O que diferencia um perfume com narrativa de um perfume comum?
Um perfume comum é formulado para agradar o maior número possível de pessoas.
Um perfume com narrativa é estruturado em torno de uma ideia central — um lugar, um momento, uma atmosfera — e cada ingrediente serve a essa ideia.
A diferença é a mesma entre um filme genérico de ação e um filme com um ponto de vista autoral claro.
4. Qualquer pessoa consegue apreciar perfumes com narrativa mais complexa?
Assim como acontece com literatura, cinema ou música, o repertório de experiências influencia a profundidade da apreciação.
Perfumes com composições mais ousadas — como os que incluem notas defumadas ou amadeiradas incomuns — tendem a ser mais bem recebidos por quem já explorou diferentes estilos olfativos.
Isso não é uma barreira, mas um convite à descoberta gradual.
Qual mundo você quer vestir amanhã?
Uma lareira nos Alpes. Um clube de jazz no Brooklyn. Uma manhã de domingo em Paris. A Coleção Réplica existe para quem já entendeu que perfume não é sobre cheirar bem — é sobre existir em outro lugar por algumas horas.



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