Série Fausto ·
O Pacto das Moedas Bonitas Ouro de tolo e o vício moderno
Artigo IV ·
Na obra clássica de Christopher Marlowe, "A Trágica História do Doutor Fausto", existe uma cena que muitos leem como alívio cômico, mas que hoje me soa como um documentário da realidade brasileira.
Nela, o servo Wagner tenta recrutar o palhaço Robin para servi-lo. Robin, orgulhoso e miserável, faz-se de ofendido. Ele quer parecer maior do que é, finge que sua dignidade não tem preço. Mas basta Wagner estalar os dedos e mostrar algumas "moedas bonitas" para que o orgulho de Robin desmorone. Ele aceita o pacto sem entender que, por trás daquele brilho imediato, ele estava entregando sua liberdade por algo que, no fundo, não valia nada.
Usa o brilho das moedas para selar o contrato.
Troca a alma por moedas de baixo valor por puro orgulho.
Essa cena é o espelho exato do que vemos hoje com o "Tigrinho", as bets e os algoritmos de aposta. O sistema é o nosso Wagner moderno: ele conhece a nossa carência e a nossa pressa. A interface brilha, o som da moeda caindo é viciante. Mas, como Robin, quando percebemos o valor real do que "ganhamos", o acordo já foi feito. Já estamos dentro.
Eu conheço bem o peso desses pactos invisíveis. Venho de uma linhagem onde o vício assinou contratos caros.
Minha avó foi alcoólatra. Meu pai fumou por trinta anos; quase perdeu a vida pelo tabaco. Hoje, quarenta anos depois de ter começado, ele ainda carrega no corpo e na respiração as cláusulas de um contrato que ele achou que poderia cancelar quando quisesse.
— O vício é um pacto de longo prazo disfarçado de prazer imediato.
Mas, ao contrário do que muitos defendem, eu não acredito que a solução seja o Estado agir como um pai autoritário que proíbe tudo. Sou contra tratar o cidadão como um "coitado" sem vontade própria. A pessoa entrou ali porque quis.
O exemplo do fumo é perfeito: campanhas claras, avisos de morte nos maços, transparência total. Informe o risco, mas deixe a decisão final para o indivíduo. A liberdade inclui o direito de errar, desde que se saiba o preço.
Eu faço a minha parte. Não divulgo bets, não faço "fezinha", mantenho distância dessas ilusões. Mas não digo isso do alto de uma montanha, como um santo isolado.
É muito fácil ser virtuoso quando não se tem tentação. O difícil é o dia a dia. É lidar com o celular na mão, com as propagandas martelando e as "moedas bonitas" brilhando na tela, e ainda assim dizer: não.
Fausto sabia o que estava entregando. Robin também. A verdadeira resistência não está em proibir o diabo de aparecer, mas em olhar para as moedas dele e saber que elas não valem a nossa paz.
As "moedas bonitas" de Wagner ainda estão por aí.
O contrato de Fausto é assinado todos os dias em cliques silenciosos.
Descubra como essa história termina na obra original de Christopher Marlowe.



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