O Cemitério de Filmes - Cássio Racy

O CEMITÉRIO DE FILMES

Uma reflexão sobre streaming, curadoria e esquecimento

Existe uma cena em Kramer vs Kramer em que Dustin Hoffman tenta fazer torradas para o filho.
Não há trilha.
Não há corte rápido.
Não há legenda explicando que "ele está aprendendo a ser pai".

Só há o pão queimando.

Hoje, essa cena seria identificada pelo algoritmo como "baixa retenção".
O espectador médio pula aos 12 segundos se não houver conflito explícito.
A plataforma, por sua vez, deixa de recomendar o título para quem não assistiu aos primeiros 5 minutos inteiros.

Quantos clássicos estão sendo enterrados não por serem ruins, mas por serem confiáveis?

Quando fico navegando nas plataformas — e fico, rolando infinitamente, como quem folheia um catálogo de um mundo que não me cabe — o que me para não é a falta de conteúdo.

Sinto falta da curadoria.

Sinto falta de quando um filme podia respirar.
De quando o ritmo era uma escolha artística, não uma métrica de engajamento.
De quando o silêncio entre duas falas carregava mais significado do que qualquer plot twist programado para o minuto 23.

"Isso não é curadoria. É estatística."

Kramer vs Kramer ganhou 5 Oscars em 1980.
Hoje, seria classificado como "drama familiar", "ritmo lento", "tema sensível".
E enterrado na terceira página de recomendações personalizadas.

Mas tem uma coisa que eu penso sempre: o cemitério de filmes.

Só que não é um cemitério de túmulos individuais, com nomes e datas.
É uma vala comum.

Lá, Kramer vs Kramer está misturado com O Elevador Assassino.
Alien, o Oitavo Passageiro divide espaço com produções que ninguém lembra o nome.
E por mais que os críticos exaltem uns e ignorem outros, alguma hora — mais cedo ou mais tarde — todos vão cair no mesmo esquecimento digital.

O algoritmo não distingue legado de lixo.

Robert Benton, o diretor, não estava fazendo conteúdo.
Estava fazendo espaço.
Espaço para o espectador pensar, sentir, se reconhecer — sem ser guiado por setas, sem ser apressado por cortes, sem ser interrompido por um "próximo episódio em 5, 4, 3...".

Hoje a discussão sobre streaming gira em torno de acesso.
Mas tem uma pergunta que ninguém está fazendo: De que adianta ter tudo à mão se nada tem lugar?

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Não perdemos o acesso aos clássicos.
Perdemos o direito de enterrá-los com dignidade.

"

Da próxima vez que você rolar a tela e sentir que "não tem nada bom", presta atenção: provavelmente não é falta de opção. É excesso de ruído.

E quando o silêncio finalmente chegar — quando a bateria acabar, quando a internet cair, quando você desligar tudo — talvez seja aí que os filmes voltem.
Não como conteúdo.
Como memória.

Cássio Racy

Série: Memórias que Marcaram — próximo: O que a TV aberta sabia sobre espera que o on-demand esqueceu.

Por incrível que pareça, achei CDs e DVDs de Kramer vs Kramer na Amazon. Olha lá.

Se você quer revirar uma vala de filmes tem uma lista ótima no site Letterboxd. Às vezes, o ato de buscar já é parte da experiência. Letterboxd pode ajudar.

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