Série Fausto ·
Os Amigos de Fausto e os que fingiam ser
Artigo III ·
Valdês e Cornélio aparecem cedo na peça.
São os amigos de Fausto. Os que ele chama quando decide cruzar a linha. Os que chegam animados, cheios de planos, prometendo glória compartilhada. Cornélio explica os rituais. Valdês lista as recompensas. Os dois apoiam sem hesitar.
E depois somem.
Marlowe os retira da história assim que o pacto está feito. Nenhuma consequência. Nenhum remorso narrado. Nenhuma cena em que olham nos olhos de Fausto e dizem foi mal, não deveria ter te incentivado.
Some quando a conta chega.
Nunca mais aparece.
Simplesmente desaparecem.
Eu já tive um Valdês.
Não vou citar o nome. Mas sei exatamente o momento em que ele assumiu meu lugar num projeto — e sei que ele sabe que eu sei, porque nunca chegou até mim, nunca me olhou no olho, nunca disse uma palavra sobre o que fez.
Simplesmente desapareceu da minha frente.
Exatamente como Valdês.
O que me impressiona, olhando para trás, não é a traição. Traição no mundo criativo é quase um rito de passagem — acontece, dói, você aprende a reconhecer o cheiro antes. O que me impressiona é o silêncio que vem depois. A ausência de qualquer momento em que o outro precisasse se olhar no espelho e nomear o que fez.
Eu tive outro amigo. O tipo difícil.
Direto. Às vezes duro. O tipo de pessoa que você afasta nos dias em que não quer ouvir verdade — e ele deixava você afastar, sem drama, sem mágoa aparente.
Mas quando tinha uma peça, ele ligava.
Olha, tem um papel pra você. Ou: vem dirigir minha peça. Sem cerimônia. Sem pedir permissão para me incluir. Sem esperar que eu merecesse primeiro.
Ele me criticava na minha cara. Discordava. Às vezes era chato. Às vezes eu não queria estar perto.
E foi só depois que entendi o tamanho do que ele era.
Porque o incômodo foi embora com ele —
e junto foi a única voz que me colocava em cena
sem precisar que eu merecesse primeiro.
Tem uma crueldade específica nessa ordem.
O amigo que assumiu meu lugar ainda está por aí. Sem ter me olhado nos olhos. Sem ter nomeado o que fez.
O amigo que ficava na minha frente e discordava, foi embora.
Marlowe escreveu isso em 1592 — a geometria é a mesma. Os que apoiam tudo somem quando a conta chega. Os que cobram, ficam. Até que não ficam mais.
Não hostilidade. Não sabotagem. Resistência — o atrito de alguém que se importa o suficiente para dizer não acho que é por aqui e continuar do seu lado depois de dizer isso.
Valdês e Cornélio nunca ofereceram resistência. Só combustível.
E Fausto foi embora ardendo.
O amigo chato que discorda, que liga quando tem peça, que fala na sua cara o que pensa — esse é o que você vai sentir falta.
Não agora. Depois. Quando você fastar pela última vez sem saber que é a última.
Valdês e Cornélio estão na peça.
Você os reconhece porque já os encontrou.
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