O pacto — o que você entrega sem assinar nada
· Artigo 2
O Pacto que
Eu Recusei
Série: Fausto ·
↓ continuarTem um detalhe perturbador na cena do pacto de Fausto que a maioria das leituras passa rápido.
Quando Fausto corta o braço e começa a escrever o contrato com o próprio sangue, o líquido coagula. A tinta vital endurece antes que ele termine a frase. E Mefistófeles — o diabo — aquece o vidro para o sangue voltar a fluir. Para que Fausto consiga terminar de se condenar.
O diabo não forçou nada. Não ameaçou. Não enganou.
Ele só removeu o obstáculo.
Eu escrevi uma peça chamada Dor... Amor.
Era sobre um casal sadomasoquista que faz uma live enquanto discute amor, posse, dor e os limites do que chamamos de relação. A peça começava com um homem, só de calça jeans, pisando sobre uma mulher vestida inteiramente de couro.
Não era uma peça para todas as audiências. Eu sabia disso quando escrevi. Era uma peça sobre poder, sobre os pactos silenciosos que dois corpos fazem entre si, sobre o que a gente chama de amor quando na verdade é controle — ou o contrário.
Em determinado momento da peça, os dois personagens chegam num nível tão específico de intimidade que começam a falar sobre dependência afetiva com uma precisão quase clínica — e ao mesmo tempo completamente visceral. A personagem feminina diz que dependência afetiva, quando é intensa o suficiente, não fica só na cabeça. Ela se instala no sangue. Você a sente circular.
E é desse lugar que ela chega em Isabel Báthory.
A Condessa Sangrenta. A húngara do século XVI acusada de torturar e matar centenas de mulheres — e sobre quem a lenda diz que se banhava em sangue de virgens para preservar a juventude. Historiadores discutem o que é fato e o que é ficção posterior. Mas o que interessa à minha personagem não é o crime. É o diagnóstico.
Para ela, Báthory era alguém que ficou tão doente pela dependência de sentir — de sentir poder, de sentir presença, de sentir que existia através do outro — que acabou extrapolando qualquer fronteira do bom senso. Não por maldade calculada. Por uma fome que não sabia mais o que estava devorando.
Cada pessoa que leu a peça me disse a mesma coisa, com variações mínimas:
Era simples. Era pequeno. Era só trocar duas posições.
Mefistófeles aquecendo o vidro.
Não mudei.
Não por capricho. Não por provocação. Mas porque mudar aquela cena destruiria toda a ideia da peça. A assimetria era o ponto. A direção do poder era o argumento. Inverter seria resolver dramaturgicamente o que a peça propunha deixar em aberto — e desconfortável.
Mudar a cena seria assinar o contrato.
A peça continua no HD até hoje. Não estreou. Provavelmente não vai estrear tão cedo, pelo menos não nos circuitos que me pediram para mudar.
E aqui está o que aprendi com Marlowe sobre isso:
O inferno que ele descreve na peça não é fogo. Não é serpente. Mefistófeles explica isso com uma calma desconcertante — o inferno nos acompanha, ele nos segue por onde andamos. É a ausência. É o vazio deixado por aquilo que você trocou.
O inferno criativo não é a obra que fracassa. É a obra que você alterou para ser aceita — e que por isso nunca foi realmente sua.
Báthory perdeu o limite entre sentir e destruir. Fausto perdeu o limite entre querer e se condenar. Minha personagem feminina enxergava isso com clareza — e mesmo assim continuava pisando na beira do abismo, porque pelo menos lá ela sentia alguma coisa.
Eu prefiro ter uma peça no HD que é exatamente o que eu quis fazer a ter uma peça em cartaz que é a versão de mim que os outros conseguem suportar.
Preste atenção quando a sugestão for pequena demais. Quando parecer razoável demais. Quando a pessoa que oferece parecer estar do seu lado.
O sangue coagula por um motivo.
Às vezes é sinal para parar.
Fausto assinou o contrato com o próprio sangue.
Você pode começar pelo texto.



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